Surrealismo Político:                                                                                 O Caos e a Hipocrisia no Brasil

ANTONIO FLÁVIO TESTA

BEM-VINDO AOS VERDADEIROS DESERTOS

Comentários, observações, entendimentos

19 de agosto de 2026

Brasília, Distrito Federal

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“O deserto do real é o preço que pagamos pela nossa imersão na realidade virtual das fantasias ideológicas.”

— Slavoj Žižek

1.  A paranoia enquanto organização estrutural

A paranoia moderna deixou de ser um diagnóstico clínico autônomo para se transformar em combustível de uma estrutura organizacional onipresente. Estamos imersos em um taylorismo intensificado, no qual a eficiência é avaliada não apenas pela quantidade de produção, mas também pela supervisão incessante e pelo controle dos comportamentos. O behaviorismo de B.F. Skinner, em suas versões mais intrusivas, descobriu um terreno propício dentro da economia da guerra incessante. O indivíduo organizacional, hoje, é objeto de um monitoramento que vai além das fronteiras do trabalho, invadindo a mente e convertendo a desconfiança em capital de mercado.

Nesse contexto, a paranoia é o cimento que une as instituições. O clamor por segurança — verdadeira ou artificial — é o que legitima a restrição de liberdades individuais em nome de uma ordem tida por absoluta, mas, na verdade, frágil. O medo é o melhor negócio da pós-modernidade, gerando uma indústria que vai do controle digital à construção de condomínios fechados, erguendo desertos de convivência humana em nome da proteção.

2. A nação, o império e a lógica da desordem

A anomia durkheimiana, entendida como a ausência de normas definidas e o enfraquecimento das conexões sociais, é atualmente uma estratégia de gestão do Estado. Para legitimar sua intervenção autoritária, o Estado, em sua busca imperialista, utiliza uma lógica hobbesiana de “guerra de todos contra todos”. Tanto o terrorismo de Estado quanto o terrorismo aleatório representam diferentes aspectos de uma mesma realidade, perpetuando um ciclo de violência que desumaniza o “outro”.

Guantánamo representa o ápice dessa época: local de exceção onde os “ninguéns” são despojados de qualquer direito jurídico ou humano. O etnocentrismo exacerbado das potências mundiais estabelece uma classificação das vidas, em que algumas merecem ser notadas e outras são apenas números em um jogo geopolítico. A lógica do caos não é um imprevisto, mas sim uma estratégia para preservar o poder, promovendo a fragmentação da resistência social.

3. A globalização e o micro lugar

Essa luta entre as forças da globalização e o microespaço é uma tensão permanente. Enquanto o capital tenta uniformizar os mercados, as identidades locais respondem com uma complexa e, às vezes, violenta sincretização cultural. Observamos uma colonização reimaginada, na qual as armas não se limitam a tanques, mas incluem algoritmos e padrões de consumo que buscam eliminar a singularidade de cada território.

A luta mimética, segundo estudiosos da cultura, coloca o micro local em um estado de resistência, mas também aspirando ao global. Essa ambivalência gera um campo de instabilidade no qual as tradições são recriadas para alimentar o espetáculo, convertendo a cultura em um produto e o espaço da vivência em um cenário para a exploração turística ou ideológica.

4. O novo ambiente micro espacial

No micro espaço, a psicologia comportamental é utilizada de forma extremamente precisa. A manipulação ocorre nas instituições, segundo os princípios das teses skinnerianas, por meio de reforços positivos e negativos, que constroem o cidadão ideal: o indivíduo apático.  O caos dirigido é uma forma de manter as pessoas em um estado de medo, onde sua capacidade de agir é paralisada por uma avalanche de informações conflitantes.

Nessa nova realidade, a privacidade se tornou uma coisa do passado. A vigilância contínua estabelece uma sociedade de desempenho na qual cada pessoa é seu próprio observador. A pressão social opressiva por conformidade anula qualquer dissidência e torna o espaço público um deserto de vozes dissonantes, no qual a única segurança aparente reside no silêncio.

5. Os paradoxos dos sistemas de referência

A incessante busca pela felicidade se transformou em uma exigência opressora. De acordo com o princípio do prazer, a perspectiva de Lacan nos revela que o desejo é, na verdade, sempre o desejo do Outro. O anseio comum por um banquete de consumo impulsiona uma sociedade que gera o Homo Otarius: aquele que adquire o que não necessita, utilizando um dinheiro que não possui, com o intuito de impressionar pessoas que não sabem sequer de sua existência.

As instituições funcionam em uma duplicidade cruel. Enquanto oferecem segurança e conforto, proporcionam instabilidade e nervosismo. O sistema de referenciação está rompido; os pontos de ancoragem que antes davam sentido à vida em sociedade — família, religião, trabalho — foram concentrados no ego, tornando-o egocêntrico a ponto de inviabilizar qualquer ação coletiva.

6. A ideologia na era pós-moderna

Na pós-modernidade, a ideologia se mantém por meio da imitação. Convicção, inteligência e honestidade: essas três qualidades são um paradoxo no cenário político atual, pois ninguém pode ter todas elas ao mesmo tempo.

O discurso político é um invólucro vazio, descolado das verdadeiras expectativas populares (quais são, realmente?).  Estamos imersos no reino da imagem, onde a aparência da política toma o lugar da ética na administração. A pós-modernidade não representa a extinção das ideologias, mas sim a sua dispersão em pequenas narrativas que apenas reforçam preconceitos e preservam o status quo disfarçado de novidade.

7. A fala e a realidade

A falência da governança é evidente na apropriação das instituições por interesses privados e corporativos. O “Brasil real” é o palco de uma “pelada de várzea” institucional, em que as regras são alteradas conforme o andamento do jogo. O surrealismo brasileiro chega ao seu ponto máximo quando observamos um juiz que se transforma no assassino da própria lei, ou um Estatuto do Desarmamento que desarma o cidadão honesto, permitindo que o crime organizado se fortaleça, protegido pelas mais altas instâncias institucionais.

Ô, paisinho besta”, diriam críticos mais mordazes. A hipocrisia sistêmica elimina qualquer perspectiva de esperança. O que se proclama é democracia e justiça, mas o que se vive é exclusão e impunidade. O surrealismo tupiniquim (se é que existiu) já não se configura como um movimento artístico no Brasil; tornou-se a maneira de funcionamento do Estado, em que o absurdo reina e a lógica é considerada uma forma de loucura. Isso tudo para beneficiar oligarquias antigas e novas, mas com o mesmo “caráter”, aprimorado com controles digitais de narrativas e indução à percepção irreal da realidade.

8. Conclusão — A dificuldade do discernimento

Estamos no ponto em que a paranoia deixou de ser um sintoma para se tornar um valor de mercado indispensável à sobrevivência do sistema. O máximo êxito da engenharia social atual consiste precisamente no embotamento do discernimento: uma massa que não consegue diferenciar o fato da versão, o “direito” ao privilégio, nem a “liberdade”da servidão voluntária. É hipocrisia pura.

O Homo Otarius, preso às instituições e ao consumo mimético, perambula por este deserto da realidade acreditando estar em um oásis de opções.

O Brasil, em sua “pelada de várzea” institucional, serve como um laboratório ideal para esse tipo de surrealismo que se consome na própria hipocrisia. Contudo, fica a provocação: dá para quebrar a casca da massificação? O que se coloca não é apenas um desafio político, mas também um desafio filosófico. Requer um nível”alephiano” de percepção — uma capacidade de enxergar, num único ponto, a totalidade das contradições que nos cercam sem sermos cegados por elas.

Nesse sentido, discernir é um ato de resistência.  Em um mundo que deseja nos transformar em autômatos skinnerianos ou súditos hobbesianos, a busca por lucidez torna-se a última barreira de resistência. O deserto existe, mas a nossa incapacidade de vê-lo é uma escolha.

Surge a indagação: estamos preparados para despertar e confrontar o vazio real, ou persistiremos em adornar as paredes da nossa prisão com as ilusões de um banquete que jamais nos será oferecido?

Publicado por Thor

observador, escritor, poeta aprendiz, professor, consultor

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