BEM-VINDO AOS DESERTOS VERDADEIROS:

Antonio Testa

Glowing humanoid bio-cybernetic figure in a futuristic neon city with flying cars and tall buildings
A glowing bio-cybernetic giant figure rises amid a rainy neon-lit futuristic cityscape.

A ORGANIZAÇÃO COMO FORMAÇÃO PSÍQUICA

Contribuições de Eugène Enriquez, Zygmunt Bauman e Byung-Chul Han — Comentários, percepções, Insights — Uma análise psicossociológica das organizações contemporâneas

RESUMO

Este ensaio propõe uma reflexão profunda e transdisciplinar sobre a natureza das organizações contemporâneas, compreendendo-as não meramente como estruturas funcionais de produção, mas como formações psíquicas vivas e pulsionais. Através de uma prosa ensaística livre, o texto articula o pensamento original de Antonio Testa com as contribuições fundamentais de Eugène Enriquez, Zygmunt Bauman e Byung-Chul Han. Explora-se o dilema humano frente ao imperialismo estatal, a paranóia institucionalizada, o colapso dos referenciais existenciais na modernidade líquida e a exaustão do sujeito do desempenho. A análise percorre desde a “horda” primitiva até o Estado moderno, denunciando a captura das instituições e o hiato entre o discurso e a realidade, culminando em uma meditação sobre a antifragilidade e a liderança no “fio da navalha” da pós-modernidade.

Palavras-chave: Organizações; Psicanálise; Modernidade Líquida; Sociedade do Cansaço; Liderança; Psicossociologia.

1. CRÍTICA AO IMPERIALISMO E AO ESTADO

Ao observarmos o panorama geopolítico global, somos forçados a encarar o que chamo de “desertos verdadeiros”. O Estado, em sua face imperial — com destaque para a hegemonia norte-americana —, deixou de ser apenas o garantidor do contrato social para se tornar uma entidade paranoica que se alimenta do medo. As instituições de segurança e guerra, sob o pretexto de proteger a liberdade, frequentemente engendram o próprio terrorismo que dizem combater. O 11 de setembro, os bombardeios em Londres, a invasão do Iraque e o limbo jurídico de Guantánamo não são acidentes de percurso, mas sintomas de uma estrutura que Eugène Enriquez descreveria como a regressão da civilização à “horda”.

Em Da Horda ao Estado, Enriquez nos lembra que o vínculo social nasce do assassinato do pai primevo e da culpa subsequente. O Estado imperial moderno tenta reencarnar esse pai tirânico, mas sem a mediação da Lei simbólica. Zygmunt Bauman, ao diagnosticar nossa Modernidade Líquida, aponta que os sólidos éticos derreteram. O medo tornou-se líquido: onipresente, fluido, impossível de conter. As instituições estatais não buscam mais a vitória definitiva, mas a manutenção de um estado de alerta perpétuo que justifica a vigilância total. Como diz Bauman: “Os sólidos estão sendo derretidos… para serem novamente solidificados, mas agora em formas que se desfazem mais rapidamente”.

Nesse cenário, o Estado funciona como uma formação psíquica coletiva que projeta suas sombras no “outro” — o terrorista, o imigrante, o dissidente. É a paranoia como política de Estado, onde a organização da violência se torna o principal produto de exportação de democracias que, internamente, já sofrem de uma anemia moral profunda.

2. PARANOIA ORGANIZACIONAL

As organizações modernas são seres vivos. Elas respiram, desejam e, tragicamente, adoecem. Quando olhamos para o ambiente corporativo atual, percebemos que a missão — o que fazer, para quem fazer, como fazer — foi sequestrada por uma paranoia estrutural. Impulsionadas por pressões competitivas desumanas e pela massificação do pensamento, as organizações criam ambientes “sadomasoquistas”.

Eugène Enriquez, em A Organização em Análise, propõe que a organização é o lugar onde o imaginário individual encontra o imaginário social. No entanto, o que vemos hoje é a predominância da pulsão de morte. A burocracia não é mais apenas um método de organização, mas uma “burocracia da morte” que aniquila a subjetividade. O indivíduo é subordinado a metas que não fazem sentido para sua existência, transformando-se em uma peça de uma engrenagem cruel.

Aqui, o diagnóstico de Byung-Chul Han sobre a Sociedade do Cansaço torna-se imperativo. O sujeito contemporâneo não é mais o “sujeito da obediência” de Foucault, mas o “sujeito do desempenho”. Nós nos exploramos voluntariamente na crença de que estamos nos realizando. A para

nóia organizacional não vem mais apenas do chefe que vigia, mas da “sociedade da transparência” onde todos vigiam todos e, principalmente, onde o indivíduo se torna seu próprio carrasco. “O sujeito do desempenho é mais rápido que o sujeito da obediência”, diz Han, mas essa rapidez é o prelúdio do burnout. As organizações tornaram-se cruéis porque perderam a capacidade de reconhecer o humano como um fim em si mesmo.

3. O RESULTADO

O que as organizações estão produzindo, afinal? Se a missão é o norte, o resultado tem sido, frequentemente, a destruição do tecido social e psíquico. O resultado de uma organização paranoica é o lucro estéril, aquele que não gera vida, mas apenas acumulação e exaustão. Enriquez afirma: “A organização não é apenas um instrumento de produção de bens ou serviços, mas também um lugar de produção de sentido, de sofrimento, de prazer e de morte”. Quando o sentido desaparece, restam apenas o sofrimento e a morte simbólica do trabalhador.

4. O NOVO CONTEXTO MICRO ESPACIAL

O espaço organizacional contemporâneo reflete essa liquidez baumaniana. Não há mais fronteiras claras entre o “dentro” e o “fora”, entre o trabalho e a vida privada. O home office, as plataformas digitais e a conectividade constante transformaram o mundo em um escritório infinito. O contexto micro espacial é agora um campo de forças onde a privacidade é sacrificada no altar da eficiência. É a dissolução dos sólidos: o escritório físico derreteu-se na nuvem, e com ele, a possibilidade de desconexão.

5. PARADOXOS DOS SISTEMAS REFERENCIAIS EXISTENCIAIS VIGENTES

Vivemos sob o signo do paradoxo. A psicanálise lacaniana nos ensina sobre a eterna insatisfação do desejo. No entanto, o capitalismo contemporâneo nos vende a ilusão de que a satisfação das necessidades é o caminho para a felicidade. O arquétipo predominante é o do consumidor voraz, que busca preencher um vazio existencial com objetos descartáveis.

Enriquez introduz aqui o conceito de Contrato Narcísico. Os membros de uma organização investem sua libido nela, esperando que a instituição retorne uma imagem idealizada de si mesmos. “Eu sou importante porque pertenço à Empresa X”. É um pacto faustiano: em troca de uma identidade emprestada, o indivíduo entrega sua autonomia.

Byung-Chul Han chama isso de “o inferno do igual“. A positividade excessiva do sistema capitalista elimina a alteridade. Tudo deve ser palatável, consumível e transparente. O conflito estrutural entre o capitalismo e seus opositores tornou-se uma simulação, pois até a rebeldia é mercantilizada. Surge a pergunta inquietante: “Devemos saber o que o outro sabe?”. Na era da transparência total, o segredo e a interioridade são vistos como ameaças. A capacidade de ser feliz, como notou Vivekananda, está intrinsecamente ligada à capacidade de sofrer. Ao tentarmos eliminar o sofrimento através de sistemas paliativos, eliminamos também a profundidade da alegria humana.

6. IDEOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE

A pós-modernidade nos legou um quebra-cabeça ético insolúvel. Proponho a análise da tríade: 1) Convicção (fé na ideologia oficial), 2) Inteligência, 3) Honestidade. Na prática das organizações e da política, as combinações tornaram-se impossíveis:

  • Quem acreditava na ideologia e era inteligente, não podia ser honesto.
  • Quem era inteligente e honesto, não podia acreditar na ideologia.
  • Quem acreditava e era honesto, fatalmente não podia ser inteligente.

Este modo liberal/esquerda dominante criou um vácuo de autenticidade. A ideologia tornou-se uma máscara líquida, como diria Bauman, trocada conforme a conveniência do carnaval pós-moderno.

7. O DISCURSO E A REALIDADE

Vivemos uma época de perplexidades profundas. No Brasil real, o hiato entre o discurso político e a prática cotidiana é um abismo. As instituições públicas estão sendo capturadas por interesses corporativos e oligárquicos, transformando a res publica em um balcão de negócios. A corrupção não é um erro do sistema, mas o seu modus operandi em uma sociedade onde o Estado nunca completou sua transição da horda para a civilidade legal. O discurso fala em cidadania; a realidade entrega exclusão. O discurso fala em ética; a realidade revela o cinismo dos “donos do poder”.

8. CIDADANIA DIGITAL E COMPETITIVIDADE

A inclusão digital é a nova fronteira da cidadania, mas carrega consigo o dilema da privacidade. Enquanto o sistema informacional se consolida, os oráculos modernos (algoritmos e Big Data) decidem quem participa e quem é excluído do banquete social. A divisão digital não é apenas técnica, é antropológica.

Han nos alerta para o “panóptico digital” (câmeras, vigilantes). Não precisamos mais de muros, pois carregamos nossos próprios dispositivos de vigilância. A competitividade na era virtual exige que sejamos marcas, não pessoas. A cidadania digital, nesse contexto, corre o risco de ser apenas a liberdade de escolher qual algoritmo irá nos governar.

9. LIDERANÇA BASEADA EM RESULTADOS

A liderança é o mito fundador de qualquer organização. Para Enriquez, o líder é a figura paterna que deve mediar o desejo e a lei. No entanto, na transição da economia industrial para a do conhecimento, a liderança sofreu uma mutação perigosa. Não se lideram mais pessoas, gerenciam-se resultados.

A avaliação de um líder hoje passa por três componentes críticos:

  1. Perfil Pessoal: Sua antifragilidade e inteligência emocional.
  2. Ambiente Organizacional: A estrutura de poder onde ele se insere.
  3. Ambiente Externo: As regras voláteis do mercado líquido.

O paradoxo é que, quanto mais focamos em resultados quantitativos, mais perdemos a “inteligência da informação” em favor de uma “desinteligência” sistêmica. A sociedade do tempo livre, prometida pela tecnologia, tornou-se a sociedade do trabalho total. O líder contemporâneo, se não estiver atento, torna-se apenas o capataz de si mesmo e de sua equipe, operando sob a “violência da positividade” de que nos fala Han.

10. TRILHAR SOBRE O FIO DA NAVALHA É GRANDIOSO

Caminhar no limite. Esta é a metáfora da existência pós-moderna. Trilhar sobre o fio da navalha não é apenas um risco, é uma necessidade para quem busca autenticidade. É o espaço entre a ordem sufocante e o caos dissolvente. É onde a alma respira, longe das certezas paranoicas das instituições. Como diria Drummond, há uma pedra no meio do caminho, mas é essa pedra que nos obriga a olhar para os pés e para o horizonte simultaneamente.

A liderança tem sido cooptada pelo discurso corporativo como a capacidade de aguentar abusos sem reclamar. Mas a verdadeira antifragilidade é um ato de resistência psíquica. É a capacidade de sofrer, como ensinou Vivekananda, sem perder a capacidade de amar e de se indignar. Contra o pensamento positivo tóxico que Han critica, a verdadeira antifragilidade reconhece a negatividade, a dor e o luto como partes integrantes da vida.

— “Essa é a esperança…”, disse a criatura ao seu criador. Neste diálogo imaginário, percebemos que a organização é a nossa criatura. Nós a criamos para nos servir, mas ela ganhou vida própria e passou a nos moldar à sua imagem. A esperança reside em retomar o sopro vital, em lembrar que as instituições foram feitas para o homem, e não o homem para as instituições. É o ensinamento de Hermes Trismegistus: “O que está em cima é como o que está embaixo”. Se nossa alma está fragmentada, nossas organizações também estarão.

11. CITAÇÃO DE VIVEKANANDA

“À medida que aumentamos nossa capacidade de ser feliz, aumentamos também nossa capacidade de sofrer.”

Esta máxima é o antídoto para a sociedade paliativa. Não há atalhos para a plenitude humana que não passem pela aceitação da nossa vulnerabilidade.

12. REFERÊNCIAS A DRUMMOND E HERMES TRISMEGISTUS

Drummond nos deu a sobriedade do cotidiano; Hermes, a profundidade do mistério. Entre a pedra no caminho e a tábua de esmeralda, o homem organizacional busca um sentido que as planilhas de Excel jamais poderão capturar.

13.  LIDERANÇA VERDADEIRA BASEADA EM RESULTADOS

Reitero: a gestão baseada em resultados, quando desprovida de humanismo, é uma forma de barbárie civilizada. A evolução da economia exige que o líder seja um terapeuta do vínculo social, um arquiteto de sentidos. Avaliar o perfil pessoal, o poder organizacional e o mercado não basta; é preciso avaliar o impacto psíquico de cada decisão. Se o resultado é uma equipe exausta e uma sociedade doente, então a liderança falhou, independentemente dos números apresentados aos acionistas. O verdadeiro resultado é a vida que floresce, não o capital que se acumula sobre desertos reais.

CONCLUSÕES

As organizações, como seres vivos, precisam de uma cura. Essa cura não virá de manuais de gestão, mas de um retorno à ética e ao reconhecimento da alteridade. Precisamos romper o contrato narcísico que nos escraviza a imagens ideais e recuperar a capacidade de criar vínculos sólidos em um mundo líquido. O desafio humano permanece o mesmo: como viver juntos sem nos destruirmos?

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Antonio Testa

Local e data: Brasília, 01 de junho de 2026

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Publicado por Thor

observador, escritor, poeta aprendiz, professor, consultor

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